Em entrevista ao podcast Inteligência
Ltda., Lula afirmou:
“Eu, como presidente da República, não vou para debate para ouvir bobagens. Não vou”. Já Flávio
Bolsonaro condiciona sua ida aos debates à participação de Lula, segundo se
ouve de sua assessoria.
Trata-se de um grande prejuízo para
a democracia.
É nos debates que os eleitores são apresentados às ideias de cada
candidato e podem cotejá-las para fazer
sua escolha na hora de votar.
É também
nos debates que os candidatos são desafiados por seus adversários e podem mostrar ali se têm capacidade de argumentação política sob o calor do enfrentamento democrático.
Pode-se argumentar que há muito
tempo os debates, em especial os de primeiro turno,
se converteram em farsas
meticulosamente preparadas por marqueteiros para produzir material para redes sociais dos candidatos, e não para
defender projetos para o País.
Candidatos sem qualquer importância participam como linha auxiliar dos nomes
mais competitivos ou estão ali simplesmente para bagunçar.
Por isso, os organizadores dos debates tentam, a cada eleição, mudar as regras para contornar esses problemas –
até agora, infelizmente, sem muito sucesso.
Ainda assim, os debates seguem
entre os raros momentos em que os principais candidatos são confrontados ao vivo.
Nenhum outro instrumento consegue reunir, ao mesmo tempo, exposição
pública, contraditório e embate direto
entre os principais concorrentes.
Nesse sentido,
Flávio Bolsonaro deveria ser o primeiro interessado em participar, por ser o principal nome da oposição, para convencer o eleitor de que
faria melhor que o atual presidente.
A prática de fugir de debates, infelizmente, não é exclusiva desta eleição.
Desde a redemocratização, candidatos
que lideram as pesquisas frequentemente passaram a enxergar os eventos como
risco, e não como obrigação.
Fernando
Henrique Cardoso recusou-se a participar dos debates em 1998, quando caminhava para a reeleição em primeiro turno.
Naquele ano, nenhum confronto
presidencial foi realizado na TV, em
meio também às regras que exigiam a
inclusão de todos os candidatos. Lula
faltou a um debate presidencial de 2006
e acabou chamado de “fujão” por, ora
vejam,
Geraldo Alckmin (PSB), hoje seu
vice-presidente, mas na época adversário na disputa ao Palácio do Planalto pelo PSDB.
Mudam os personagens, mas a lógica
se repete: quem acredita ter mais a perder administra riscos.
Fora dos debates, a campanha transcorre quase sempre em ambientes cuidadosamente controlados pelos próprios candidatos.
As entrevistas são negociadas, e o candidato escolhe o formato, define a estratégia e fala à própria
plateia.
O debate é um dos raros momentos
em que não há como eliminar a pergunta incômoda, escolher o interlocutor ou
mudar de assunto.
No entanto, qualquer exposição que
não possa ser rigidamente controlada
passa a ser vista como ameaça. O marketing substitui o compromisso com o debate público.
A estratégia pode ser eficiente para vencer eleições, mas empobrece o processo eleitoral.
O maior prejudicado não é a emissora que organiza o debate nem os adversários privados do confronto.
É o eleitor. Sem debates, a campanha pode ser
uma sucessão de monólogos.
Cada candidato fala apenas para sua própria audiência, cercado por aliados e inquirido por entrevistadores muitas vezes
amistosos.
É perfeitamente legítimo discutir novos formatos, menos engessados e mais
capazes de produzir debates substantivos.
O que não é aceitável é transformar
a participação nesses encontros em
uma opção sujeita ao humor das pesquisas ou ao cálculo dos marqueteiros.
Quem pede milhões de votos não pode escolher os ambientes em que será
questionado.
Enquanto não surgir instrumento mais eficaz para garantir esse
confronto público, fugir dos debates
continuará sendo uma forma de enfraquecer a democracia.